Opinião

Fim de Ano. Novas perspectivas.


Passo a escrever para meus grandes amigos Pepê e Patrícia, voltando a uma parceria com o JC de décadas atrás, ainda sob o comando do saudoso "seu" Pedro, quando perpetrei algumas dezenas de crônicas que nunca tive a coragem de reunir e lançar. Quem sabe um dia.

Disse para Patrícia que queria fazer algo leve, ao final desse ano tão conturbado e polarizado por radicalismos diversos, principalmente na política, e que termina com as lamentáveis e tristes notícias que mostram que alguém que se dizia ungido por Deus era na verdade uma fraude, muito mais perto do Mal do que do Bem que aparentava exteriormente - e a notícia de que movimentou 35 milhões de reais em contas bancárias mostra que era na verdade um "industrial da cura", um empresário dedicado à riqueza e ao luxo, algo inimaginável em um grande espiritualista como Chico Xavier, por exemplo.

Mas eu disse que queria ser leve e já não estou sendo. Procuro motivos para essa leveza e lembro do que pode ser chamado de "espírito natalino"; não o das compras inevitáveis, mas da origem dessa festa tão bela quanto ecumênica, hoje em dia, a transcender mesmo a fé cristã para atingir a todos em uma época de renovação das esperanças e de reflexão sobre o que foi feito e o que se deixou de fazer no ano que finda.

O Natal tem origem muito, muito remota. Era a festa do "Solis Invictus" (o Sol Invicto), que na antiga Roma festejava a volta dos dias mais longos, após ter-se chegado aos dias mais curtos do ano - estamos falando do Hemisfério Norte, claro; no Hemisfério Sul dá-se o inverso, com os dias passando a encurtar-se.

Era uma festa pagã que celebrava também a fertilidade e o renascimento das esperanças. Em sociedades que dependiam essencialmente da agricultura, faziam-se homenagens à deusa Ceres, a Júpiter, a Baco e a todos que, de uma maneira ou outra, ao ver dos romanos os protegiam das intempéries e dos maus humores do clima.

Conforme o cristianismo tornava-se a religião oficial de Roma, era imprescindível que as datas das antigas festas pagãs fossem substituídas por festas cristãs, como 24 de junho, por exemplo, que comemorava o final do inverno e passou a celebrar São João Batista, ou as festas bachianas (ou dionisíacas, na Grécia), que se tornaram o Carnaval mas, a seu final, recebiam o perdão e as bênçãos eclesiásticas - na quarta-feira de Cinzas, por exemplo, e posteriormente na celebração da Semana Santa e Páscoa.

No caso do Natal, somente no século IV da Era Cristã definiu-se que o dia 25 de dezembro celebraria o nascimento de Cristo, pois nunca se soube, verdadeiramente, o dia em que isto ocorreu. Com isso, tinha-se um forte pretexto para extinguir as celebrações pagãs do "Solis Invictus", transformando-as na data magna do cristianismo - e fixando o dia 6 de janeiro como Dia de Reis, já que na tradição da época os Reis Magos teriam levado doze dias para chegarem à cidade de Belém e entregarem ouro, incenso e mirra ao menino Jesus.

Mas se a data é eminentemente cristã, nem por isso deixa de ser uma época de congraçamento geral, até pela figura do Papai Noel, inspirada no bispo turco Nicolau, nascido em 280 da nossa Era e que se dizia ajudava as pessoas pobres, deixando saquinhos com moedas próximas às chaminés das casas. É o Santa Claus americano, com roupas vermelhas popularizadas pela campanha publicitária da Coca Cola em 1931 e que se tornaram a marca registrada da figura lendária, puxando suas renas voadoras em seu trenó.

Nada disso explica, porém, o sentimento que a época do Natal torna único, uma mistura de cansaço com esperança, de reflexões e planos futuros, de ansiedade e paciência com o porvir. Além da fé e da publicidade das compras, Natal é sinônimo de renascimento, de novo fôlego, de energia renovada para manter o que foi feito de bom e refazer o que poderia ter sido melhor - ou fazer o que se omitiu por qualquer boa ou má razão.

É uma época em que não queremos mais descontos, promoções ou liquidações; o que queremos é renovar nossa fé na vida, em nossas aptidões e planos futuros, ou até acreditar mais uma vez que a espécie humana não é a pior que já pisou nesse planeta, ainda que tenhamos tantos exemplos em sentido contrário, tantos falsos deuses e profetas.

E talvez seja essa, justamente, a insustentável leveza do ser: o espaço vazio em nossas almas que buscamos preencher com os sorrisos das crianças, com o cansaço dos velhos, com a ternura dos jovens namorados ou a paixão dos amantes. Tudo o que faz com que sigamos adiante, acreditando piamente que o trenó de Noel existe sim na mente de cada um - e nos traz a felicidade não como um brinquedo que não tem, mas como uma realidade fugidia que não podemos deixar escapar quando a reconhecermos.

A todos do Portal do JC, ao Pepê, à Patrícia, aos seres humanos de Boa Vontade, meu desejo de que não deixemos escapar a felicidade quando ela passar, voando, no trenó de nossos sonhos. Feliz Natal. Que o Sol permaneça Invicto!


Cláudio Levada Cláudio Levada é Desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo e Coordenador do Curso de Direito do Centro Universitário Padre Anchieta.

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