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INFÂNCIA


       Meu caçula de cinco anos, Igor, pula em minha cama às seis da manhã, porque a fadinha do dente deixou duas moedas de um real pelo dente dele que caiu ontem. Alegria pura, real, sem malícia ou outras intenções: foi recompensado porque está ficando grande, porque o dentinho caiu e logo virá um dente permanente!

       Passa pela minha cabeça que esse mesmo ritual eu já havia passado com meus outros cinco filhos, sempre com as mesmas reações de contentamento próprias de quem ainda vive uma vida de sonhos e de planos de um futuro ao longe, muito longe.

       Por que crescemos, afinal, e gradativamente deixamos de lado nosso mundo mágico e feliz para adentrarmos numa realidade pesada, sufocante, de luta diária pela vida e pela satisfação de nossas necessidades básicas? Por que um dia acordamos e percebemos que estamos por conta própria, sem a proteção dos pais e de nosso círculo familiar?

       A resposta mais simples é de que o ciclo da vida pede a substituição dos que envelheceram pelos que estão chegando. Força nova, energia recomposta, desse modo a espécie se perpetua e cumpre seu papel evolucionista. Para outros, com o crescimento cada um estará pronto, aos poucos, para cumprir sua missão, ou seu karma, para quem crê numa evolução não apenas material, biológica, mas também espiritual, em um caminho de luz e de desvinculação passo a passo dos sofrimentos terrenos, dos desejos que nos escravizam e dos medos que nos aprisionam.

       Mas não deveríamos crescer... Não deveríamos perder nossas moedinhas da fada do dente, nem deveríamos saber que Papai Noel foi só uma invenção para fortalecer o capitalismo no final de cada ano (nunca me esqueço que vi, minha mente de cinco anos VIU, o trenó indo embora e misturando-se às estrelas...).

       Demore, Igor, a deixar de ser criança. Demorem, meus netos, a ter outros desejos que não sejam brinquedos e hambúrgueres. Nada é igual à infância, a verdadeira melhor idade, dos sonhos de nuvens de algodão e de crianças jogando bola no céu. A beleza da inocência e da pureza, que uma vez perdidas não revertem, não voltam, não se acessam mais...


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